Seguindo o plano de Trump, o governo dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira o início da segunda etapa do plano de paz para Gaza. A declaração foi feita pelo enviado especial para o Oriente Médio, Steve Witkoff, e sinaliza uma mudança de foco: sai a trégua instável e entram medidas voltadas ao desarmamento, à administração civil técnica e à reconstrução ampla do território atingido pelo conflito.
De acordo com Witkoff, essa nova fase prevê a criação de uma autoridade palestina temporária formada por especialistas, batizada de Comitê Nacional para a Administração de Gaza (CNAG). O órgão terá a missão de conduzir a vida civil no enclave enquanto avança o processo de retirada de armas, incluindo o desmantelamento de grupos armados não autorizados.
O representante americano reforçou que Washington espera o cumprimento integral do acordo por parte do Hamas, incluindo a entrega imediata do corpo do último refém israelense que permanece sob seu controle. Caso isso não ocorra, advertiu, os Estados Unidos poderão adotar medidas duras em resposta.
Segundo fontes oficiais, a decisão ocorre em um momento em que o cessar-fogo firmado em outubro segue ativo. Desde então, o Hamas devolveu todos os reféns vivos e quase todos os mortos. A primeira etapa do plano, explicou Witkoff, permitiu a entrada de ajuda humanitária em escala inédita, manteve a suspensão dos combates e possibilitou a libertação dos cativos. Ele também reconheceu o papel decisivo de Egito, Turquia e Catar nas negociações.
Na segunda fase, o governo americano pretende divulgar os nomes de 15 tecnocratas palestinos que integrarão o CNAG. Esse grupo ficará responsável por áreas como saneamento, energia, educação, transporte e serviços públicos. A liderança ficará a cargo de Ali Shaath, ex-vice-ministro da Autoridade Palestina em Gaza, atualmente radicado na Cisjordânia.
Autoridades dos EUA indicam ainda que Nickolay Mladenov, ex-enviado da ONU para o Oriente Médio e ex-chanceler da Bulgária, assumirá o posto de Alto Representante de um Conselho de Paz idealizado por Trump. Ele atuará como ponte entre os administradores palestinos e esse conselho internacional, que definirá diretrizes estratégicas para o período pós-guerra. A primeira reunião do novo órgão está prevista para ocorrer no Cairo.
Embora o governo americano descreva o projeto como um caminho para transformar Gaza em uma região estável e economicamente viável, os obstáculos são consideráveis. O Hamas ainda não apresentou um plano claro para seu próprio desarmamento, ponto central para a reconstrução e para a formação de uma autoridade civil fora de seu controle direto. Mesmo com a promessa de dissolver seu governo local após a instalação do comitê técnico, a desconfiança permanece.
O ex-embaixador dos EUA em Israel, Dan Shapiro, alertou que o grupo pode sair do processo enfraquecido, porém ainda relevante, o que abriria espaço para novos confrontos no futuro.
Do lado israelense, o governo afirmou que a Fase II só poderá avançar plenamente após a devolução do corpo de Ran Gvili, policial morto nos ataques de 7 de outubro de 2023. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu também reiterou sua oposição tanto à presença da Autoridade Palestina em Gaza quanto à criação de um Estado palestino.
Washington confirmou ainda que Indonésia e Marrocos sinalizaram disposição para enviar tropas a uma futura Força Internacional de Estabilização, destinada a ajudar a manter a ordem no território. No entanto, vários países demonstram resistência em participar de missões que envolvam o desarmamento direto do Hamas, o que dificulta a formação da força.
Apesar das incertezas, a Casa Branca sustenta que o objetivo final é a perda gradual de poder do Hamas e a implantação de uma nova estrutura administrativa em Gaza. Se essa transição será viável, ainda é uma incógnita, já que o plano avança para a etapa mais complexa: sair da trégua armada e enfrentar os desafios políticos e de segurança do pós-guerra.








